Mulheres com Deficiência pela Inclusão Já!

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quinta-feira, 29 de junho de 2017

BOTECO DA DIVERSIDADE: SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA - Capítulo 3

Queridas e queridos, segue o terceiro capítulo do artigo de Ana Rita de Paula sobre "Sexualidade e Deficiência" publicado no Boteco da Diversidade, evento realizado no SESC Pompéia em SP.

Leiam, comentem e compartilhem!
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A deficiência como experiência subjetiva
Quando falamos em pessoa com deficiência, os principais aspectos que nos vêm à mente dizem respeito às suas necessidades educacionais, à reabilitação e principalmente à profissionalização e colocação no mercado de trabalho, como coroamento de todo um processo de assistência, desde a infância até a vida adulta. Isto porque estamos ainda vivendo em uma cultura marcada pelo capacitismo*2, na qual a produtividade e a utilidade são as medidas para determinar o valor humano. Assim, crianças, idosos e pessoas com deficiência só alcançam valor social quando podem ser úteis socialmente e estarem inseridos no mercado de trabalho.

A sexualidade da pessoa com deficiência é, na maioria das vezes, ignorada ou, quando muito, é vista como um aspecto de importância secundária, tal como o lazer.

Mas, na verdade, a sexualidade é o centro de todo o processo de desenvolvimento, com repercussões na escola, no trabalho, em todas as áreas da existência. Uma pessoa que não consiga vivenciar plenamente a sua sexualidade terá a sua qualidade de vida prejudicada. Porém, já deve ter ficado claro para você, leitor, que não estamos falando do ato sexual genital. Consideramos a sexualidade como motor da vida, como já afirmamos anteriormente, transcrevendo o trecho de Chauí.

Nesta forma de entender, a sexualidade está presente desde o ato da concepção, do nascimento, já se expressando nas primeiras horas de vida. Os pais, quando aguardam o seu bebê, já constroem fantasias e planos para o seu futuro, projetando desejos que irão influenciar o jeito dele ser, viver e expressar a sua sexualidade.

O desenvolvimento sexual, segundo Perske, inicia-se já nessa fase, quando a mãe amamenta e aconchega seu filho, quando o pai o pega ao colo e o abraça, quando começa a ser arreliado e acariciado por irmãos e irmãs. Para que as crianças com deficiência tenham seu início de vida marcado positivamente é crucial que a mãe, mesmo diante de um bebê diferente do esperado (até porque qualquer bebê é necessariamente diferente do idealizado pela cabeça dos pais), estabeleça um vínculo afetivo e se sinta segura e capaz de criá-lo como aos outros, de forma natural e espontânea. Infelizmente, muitos dos profissionais especializados e a sociedade em geral não colaboram para isto e acabam reforçando a ideia de incapacidade e inadequação dos pais.

À medida que o bebê se desenvolve, a partir da auto exploração tátil, começa a estabelecer os limites do próprio corpo e do mundo que o cerca. As crianças com deficiência percorrerão caminhos diferentes nesse processo de reconhecimento de si e do ambiente, em função de não disporem da visão, da audição, ou devido às suas dificuldades motoras ou cognitivas, necessitando de apoio para consegui-lo. Na verdade, é importante lembrarmos que qualquer bebê, quer tenha ou não uma deficiência, constrói um caminho próprio para se desenvolver e necessitará, certamente, de estímulo e apoio neste trabalho.

Mais tarde, ainda segundo Perske, o processo de socialização irá se realizar através do correr, brincar e lutar com amigos e com as vivências de meninas caçoando de meninos e estes mexendo com elas. Já a criança com deficiência, ao ingressar em outros grupos sociais, tais como o de amigos da rua, da escola e outros, defrontar-se-á diretamente com a percepção de suas diferenças.

Consequentemente passará por experiências de aceitação plena ou de rejeição e indiferença por parte de seus pares, o que poderá auxiliá-la ou não no desenvolvimento da autoimagem e da autoestima, aspectos fundamentais para o desenvolvimento de sua sexualidade. Podemos dizer que o fundamental, neste período e, aliás, em todos os momentos da vida, é a convivência da pessoa com deficiência com seus pares e com as demais pessoas. Transitar em vários grupos sociais é receita certa para que o processo de inclusão social ocorra e, as pessoas tenham todo tipo de experiências de socialização e aceitação.

Ao ingressar na adolescência, as pessoas costumam escolher umas às outras, de maneira que cada um encontre aqueles ou aquelas com as quais gostariam de estar sempre junto. Simultaneamente passam a ter sentimentos estranhos nas partes íntimas e a descobrir prazeres que a mão pode produzir, em função das mudanças físicas e hormonais que ocorrem em seu corpo. Esta é uma das fases mais temidas pelos pais de pessoas com deficiência. Alguns tentam negá-la, principalmente quando o filho possui uma deficiência intelectual, infantilizando-o e desejando que a sexualidade desapareça. Outros, ainda, pensam em atitudes drásticas, como a esterilização, temendo não só as atitudes do próprio filho, como possíveis abusos provenientes de outras pessoas.

O estágio de passagem da infância à adolescência é de suma importância, pois pode determinar o ingresso ou não do indivíduo no mundo adulto, de forma responsável, autônoma e independente. A pessoa com deficiência conseguirá viver essa fase plenamente, alcançando o mundo adulto sem maiores problemas se receber os apoios necessários, tanto físicos como emocionais.

Muitas vezes, a deficiência é adquirida justamente nessa fase e na vida adulta, acarretando uma ruptura no ritmo e nos seus projetos de vida. Fica marcada uma divisão entre o antes e o depois, com a ocorrência de uma nostalgia do próprio ser. Podem ocorrer mudanças significativas também nas experiências mais íntimas, de percepção de si mesmo e do próprio corpo. Porém, com o passar do tempo este novo corpo torna-se seu corpo e as experiências de toque corporal, quer por si mesmo, quer por outrem, tornam-se prazerosas.

As deficiências físicas mais frequentemente adquiridas nessas faixas etárias são resultado de acidentes e/ou traumatismos, ocasionando lesão medular, por exemplo. Essas deficiências (Paraplegia e Tetraplegia) são os únicos quadros que geram alterações no desempenho sexual, tanto de homens como de mulheres. Porém, isto dependerá tanto de fatores orgânicos, como a altura da lesão, como de fatores psicológicos e socioculturais, como a autoimagem e as expectativas sociais no que diz respeito ao comportamento de homens e mulheres em relação aos papéis sexuais.

Sabe-se que toda crise pode ser momento de mudanças positivas. Assim, a aquisição deste tipo de deficiência pode se tornar oportunidades para questionar e subverter as regras e modelos de desempenho sexual, tanto para homens, quanto para mulheres, permitindo-se explorar o corpo e suas diversas possibilidades de prazer. Inclusive, se for do desejo do homem com deficiência, atualmente, para os casos de impotência masculina, devido à lesão medular, já existem algumas alternativas que viabilizam o ato de penetração em si e até a possibilidade de gerar filhos.

No caso de deficiências congênitas ou adquiridas na infância, como síndromes e Paralisia Cerebral, nem sempre a questão é de desempenho, mas de encontrar um parceiro/a que o/a aceite, dada a existência, muitas vezes, de deformidades ou, dizendo de forma correta, de corpos com conformações estéticas diversas.

Para aqueles com deficiências com maiores incapacidades e limitações, principalmente casos de pessoas com múltiplas deficiências, torna-se mais difícil que a família e a sociedade percebam, aceitem e viabilizem a expressão de suas necessidades sexuais. Atualmente, em outros países, iniciou-se a discussão da importância de disponibilizar um auxiliar de vida sexual, um agente que ajuda a dupla, ou o conjunto dos parceiros, na realização do ato sexual quando todos possuem limitações motoras significativas. A discussão do sexo apoiado ainda é incipiente em nosso país.

O certo é que a forma de vivenciar a sexualidade, o corpo e a deficiência depende de tudo o que acontece com a pessoa, depende de sua história de vida, das expectativas familiares antes e após seu nascimento, das rejeições, das frustrações e das relações bem-sucedidas. Neste processo de conhecimento, estão incluídas experiências imaginárias e reais.

Acreditamos que pessoas com deficiência, provenientes de famílias e comunidades que lhes ofereçam os apoios necessários ao seu desenvolvimento global, desde a infância, possam tornar-se pessoas capazes de realizar-se sexualmente e de, se assim o desejarem, constituir famílias.


De qualquer forma, é importante que as pessoas com deficiência e suas famílias busquem informações e orientações que necessitem no que diz respeito à sexualidade e, que os profissionais se preparem para realizar um trabalho, tanto com os pais, como com os próprios indivíduos com deficiência, propiciando-lhes um espaço de reflexão, de autoconhecimento e de compreensão de sua sexualidade, em um diálogo ético, franco e de respeito.


2* O termo capacitismo é tradução de “ableism”, forma surgida em países de língua inglesa. Refere-se à discriminação, preconceitos e opressão contra pessoas com  qualquer tipo de deficiência, advindos da noção de que pessoas com deficiência são inferiores às pessoas sem deficiência, na medida em que, supostamente, não teriam as mesmas capacidades das demais pessoas, em uma sociedade que valoriza o homem por sua condição de produtividade e de utilidade social.

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Os primeiros capítulos deste artigo estão nos links:

Capítulo 1:

https://coletivomulheresinclusao.blogspot.com.br/2017/06/boteco-da-diversidade-sexualidade-e.html

Capítulo 2:

https://coletivomulheresinclusao.blogspot.com.br/2017/06/boteco-da-diversidade-sexualidade-e_28.html

quarta-feira, 28 de junho de 2017

BOTECO DA DIVERSIDADE: SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA - Capítulo 2

Queridas e queridos, segue o segundo capítulo do texto da Ana Rita de Paula sobre Sexualidade e Deficiência. 

Continuem acompanhando suas ótimas reflexões, comentem e compartilhem! 

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Diversidade corporal
Ana Rita - 2016
Nós somos o nosso corpo.
O meu corpo sou eu.
Você me vê porque habito um corpo.
Eu me relaciono com você e com o mundo através do meu corpo.
Se temos direito à diversidade, temos direito de nos expressar através de nossos diferentes corpos.
Ao meu corpo não falta nada,
Não quero retirar nada do meu corpo.
Sou reconhecida, aprovada ou não, pelo meu corpo.
Meu corpo guarda a memória de momentos felizes e encontros não tão felizes.
Meu corpo guarda a nostalgia do que desejo e não posso alcançar.
Meu corpo comemora tudo que consegui atingir.
Meu corpo é sábio e burro ao mesmo tempo.
Eu e meu corpo não queremos e não podemos ser autossuficientes.
Meu corpo pede e anseia pelo seu toque.
Meu corpo teme o seu não e sua agressão.
Nossos corpos foram considerados máquinas, naturalmente ajustadas como relógios.
Descobriram o fluxo do sangue e o funcionamento orgânico dos nossos corpos.
Hoje, nossos corpos são integrados e integram partes mecânicas e eletrônicas.
Nossos corpos, hoje, rompem a barreira do humano e do cibernético,
Experimentando uma nova estética.
No entanto, é mais do que necessário, hoje, adotarmos uma nova ética
Para nos relacionarmos com nossos corpos e com o corpo do Outro.
Essa ética deve buscar algo para além da perfeição e da eugenia.
Essa ética deve buscar reconhecer e valorizar a beleza que reside na diversidade.
Vivemos na pós-modernidade.
Estamos abandonando regras fixas, parâmetros indiscutíveis e teorias que desejam explicar tudo.
Estamos perdendo um chão falsamente construído e nos lançando em incógnitas infinitas.
Assim, é natural e desejável que abandonemos a ideia do Homem Vitruviano,
Do ideal do homem proporcionalmente construído e controlado.
Há diversos corpos buscando reconhecimento,
Há diversos corpos buscando dignidade,
Há diversos corpos buscando o direito ao prazer.
A energia poderosa da vida, também chamada sexualidade,
Possui a capacidade de romper barreiras, de proporcionar encontros inusitados,
Gerar novos corpos que também tem o direito ao prazer e à diversão.
E o direito à diversexualidade!


Todos somos seres sexuais
A sexualidade é um fator essencial da natureza humana e não é possível diminuí-la, negá-la ou fazê-la desaparecer. Todos nós somos seres sexuais e, obviamente, as pessoas com deficiência também o são. Entretanto, há apenas alguns anos atrás, nem se admitia que essas pessoas tivessem necessidades e direitos a vivenciar e expressar sua sexualidade. Hoje é incontestável que todas as pessoas com deficiência têm o direito a uma vida afetiva e sexual plena.

A partir do movimento das pessoas com deficiência por seus direitos, ao longo das décadas de 1960 e 1980, a sexualidade da pessoa com deficiência começa a ser discutida. O interesse por esta questão inicia-se com a constatação de que a sexualidade é um direito inerente à condição humana, paralelamente a estudos sobre autoimagem. Todos esses estudos reconhecem que a sociedade crê haver somente duas alternativas possíveis: a deficiência acarretaria a impossibilidade do exercício da sexualidade ou a condição da deficiência não implicaria em nenhuma alteração na vida sexual.  

Ambas as colocações são falsas, pois uma nega a sexualidade e a outra, a deficiência, ignorando a articulação destes aspectos no que diz respeito à vivência individual e mesmo das consequências no plano social. No início dos anos 80, a sexualidade destas pessoas é abordada a partir de outras concepções, que não o de uma mera necessidade orgânica. A adolescência, o desempenho de papéis sexuais, a gravidez e o planejamento familiar para pessoas com deficiência, tornam-se temas de reflexão. Afirmam PAULA, REGEN E LOPES (2005, p.41):

“Estes estudos já revelam uma tendência, embora tênue, de elaborar uma análise mais psicossocial do que meramente orgânica e genital. No entanto, como o enfoque central é desenvolver técnicas de intervenção clínica e de aconselhamento visando ao ajustamento social, ainda persiste o viés de patologizar a sexualidade e a deficiência”.

O atendimento às pessoas com deficiência está se afastando de uma postura assistencialista e segregacionista, segundo GLAT (2007), voltando-se para uma abordagem sócio educacional, com ênfase na autonomia e inclusão social. A consideração dos direitos sexuais e reprodutivos como Direitos Humanos, a partir de 1994, reforçou a tendência de uma compreensão mais ampla deste campo, estendendo esses direitos para as pessoas com deficiência.

A preocupação crescente com a humanização dos serviços de saúde vem ao encontro da garantia desses direitos. Podemos entender humanização como a capacidade, tanto dos profissionais de saúde como dos usuários do SUS, de estabelecerem um encontro ético, no qual o diálogo, ou seja, a capacidade de ouvir empaticamente o outro esteja presente.

No caso das demandas relacionadas à sexualidade ou às questões de gênero, ouvir empaticamente o usuário do Sistema de Saúde implica em desenvolver um olhar destituído de preconceitos. Muitas vezes, por exemplo, a ideia de incompatibilidade entre desejo sexual e deficiência física, pode se antepor a escuta da fala do outro.

Um episódio ocorrido com uma mulher com deficiência exemplifica esta situação. Em uma consulta com um médico de família, uma mulher com deficiência solicita a realização do exame Papanicolau e lhe é dito que, em seu caso, não é necessário realizar o exame porque a incidência de câncer de colo de útero está ligada à vida sexual ativa. A suposição de que aquela usuária, em função da deficiência, não tinha vida sexual, impediu o profissional de reconhece-la como mulher e, mesmo, como pessoa.

No intuito de responder a demanda de definição de diretrizes e orientação aos profissionais do SUS, o Ministério da Saúde realizou diversos encontros e seminários, culminando com a publicação do documento “Direitos Sexuais e Reprodutivos na Integralidade da Atenção à Saúde de Pessoas com Deficiência” em 2009, contendo recomendações para os gestores do SUS operacionalizarem as ações propostas pela Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência neste campo.

Outros documentos nacionais e internacionais foram surgindo ao longo do tempo, reafirmando este tema como pertencente ao campo dos direitos humanos. A Convenção da ONU, sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Governo brasileiro em 2008, além de  reiterar a necessidade do reconhecimento da importância de abordar o tema “sexualidade” nos seus múltiplos aspectos: direito ao exercício da sexualidade com segurança, dignidade e direito à reprodução, prevenção e promoção da saúde e a urgência de ações de prevenção contra a violência e abuso sexual, diagnóstico e tratamento das DST/aids que contemplem as especificidades da pessoa com deficiência, explicita a situação de maior vulnerabilidade e de desrespeito para com os  direitos humanos, sociais, econômicos e políticos  das  crianças e particularmente das mulheres com deficiência.

A mais recente legislação no campo da deficiência no Brasil é a Lei Brasileira de Inclusão - LBI (2016) e, este instrumento legal também trata de aspectos importantes para a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência, impedindo, por exemplo, que mulheres com deficiência sofram qualquer procedimento médico ou cirúrgico sem seu consentimento com o intuito de restringir ou impossibilitar a gestação.


Tanto a Convenção como a LBI são a tradução do pensamento mais atual na área da defesa dos direitos das pessoas com deficiência, a tal ponto que convido você, leitor, a dar pelo menos uma olhadinha nestes documentos. Mas, se você estiver envolvido com a questão da deficiência, quer pessoalmente, quer profissionalmente, trata-se de uma leitura obrigatória.

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O primeiro capítulo deste artigo está no link: 

https://coletivomulheresinclusao.blogspot.com.br/2017/06/boteco-da-diversidade-sexualidade-e.html

segunda-feira, 6 de março de 2017

Suely Satow fala sobre preconceito




Suely Harumi Satow fala de sua vida escolar e sua entrada no Movimento Pelos Direitos das Pessoas com Deficiência (MDPD) e sobre o preconceito que as pessoas com paralísia cerebral ainda sofrem.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sexo? Eu? Como? Não posso, mas quero. Quero tanto!



Descrição da imagem: Leandra e seu amado noivo, Marcos em total esplendor.


Por Leandra Migotto Certeza*

A ideia de posar para fotos sensuais foi de Vera. Eu só senti uma atração irresistível por tudo o que ela dizia. Há alguns anos havia posado para ela para impressionar o meu primeiro namorado. Brincadeira de menina. Vontade de mostrar todo meu poder de seduzir. Muito mais a mim mesma do que a ele. Sempre fui vaidosa mesmo em meio a gessos, dores, formas contorcidas, e falta de pernas. Sempre gostei muito de sorrir. Sempre senti vontade de me mostrar. De me exibir. De me amar. De me querer. Os tempos foram passando e essa vontade aumentando...

Hoje os embates internos são menos intensos, e as dores inferiores aos prazeres que descobri em meu corpo ‘diferente’. Antes eu tinha vergonha de assumir que me gostava. Pensava: o que as pessoas vão dizer? Sei que não sou mais criança (há muito tempo toquei meu corpo e senti vida pulsando!), mas ainda tenho tamanho de uma. E me tratam como se fosse. Sexo? Eu? Como? Não posso, mas quero. Quero tanto! Minha ‘mãe’ (interior?) dizia que eu ficava feia de saia. Meu ‘pai’ (interior?) não queria que eu usasse batom. Quando tinha cinco para seis anos fiz meu primeiro ‘ensaio’ fotográfico. Posei para minha tia. Fantasias mil... Vestiram-me de coelhinha (não a coelhinha da Playboy), palhaçinha, indiazinha... Fiz ‘caras e bocas’. Sorri. Fui feliz. Muito feliz.

Depois vieram os carnavais. Desfilei de melindrosa, fadinha... Dancei no colo, tomando emprestadas as pernas do meu pai e dos meus tios amados. Exibi-me. Contaram-me que antes desses tempos eu já gostava de tirar fotos. Que sempre gostei de me mostrar. Por que será? Ainda bem. Só depois que descobri o quanto isso foi bom para minha vida. Muito mais do que auto-estima e tralalás - como dizem os especialistas - eu simplesmente me AMAVA. Em meio a uma sociedade cheia e impregnada de supostos ‘valores morais’, infestada de pré-conceitos sobre o que é certo e o que é errado, apenas fui eu mesma, sem medo de ser FELIZ (como sabiamente disse o querido compositor brasileiro, Gonzaguinha).

‘Pecados’... Oh, ‘pecados’! ‘Cometi’ vários. E como foi bom! Faria tudo outra vez. Sempre. Para mim, amar é se gostar. É sentir o seu corpo. É pulsar junto com a vida que corre em suas veias. Sentir êxtase é renascer. Fomos feitos de um ato de amor que primeiro foi sedução. Seduzir pra mim é muito mais do que desejo sexual. É um encontro de energias. Energias cheias de vidas. E vidas são feitas por troca de energias. Corpo e alma se fundem em um ato de puro prazer. Quando falo de vidas que são feitas, não estou dizendo apenas da maravilhosa (eu creio) procriação, mas de encontros sutis que ‘gestam’ felicidade entre pessoas que se gostam; se querem; se desejam; e se curtem eternamente ou enquanto durarem esse encontro tão mágico e humano. Sejam elas do mesmo sexo ou não.

Quando eu tinha 14 anos, as meninas falavam de vestidos, saias, saltos altos, valsas, cabelos longos, maquilagens... Eu ia me formar na antiga oitava série, e tinha vergonha de me mostrar como era: uma menina que estava desabrochando. Pelos seios que cresciam em meu pequeno corpo, pelos quadris que se alargavam junto as minhas curtas pernas, pelos pêlos que apareciam em lugares ‘proibidos’, e principalmente pela grande vontade de beijar na boca. Por que temia tanto mostrar a todos que gostava de mim mesma sendo diferentes delas? Não sei. Até hoje me pergunto, porque sofri tanto me preocupando com a opinião dos outros, se no fundo eu me gostava. Mas como dizem os especialistas só construirmos nossa imagem pelos olhares dos outros.

Sempre fui olhada, observada, esquartejada, detalhada... Sempre fui comentada, falada, cochichada, fofocada, julgada... Poucos se aproximavam para me conhecer. Ainda não os compreendo, mas não os culpo muito (só um pouco). Mas naquela época foi MUITO duro viver. Afinal, nasci em uma sociedade que valoriza o equilíbrio, a beleza perfeita, o linear, a sincronia, a coerência, a igualdade das formas... Resumindo: o ideal da perfeição que não existe nesse Planeta. Todos os seres humanos são DIFERENTES. Todos sem exceção. Para mim a beleza é a forma CALEIDOSCÓPICA que TODAS as pessoas têm. Beleza, sedução, sensualidade, sexualidade, amor, paixão, sexo, tesão e desejo são energias tão sutis e tão FORTES que estão em tudo que fazemos.

Fui à formatura da oitava série. Vesti um lindo tubinho branco com bolero de lese, feito com todo carinho por minha adorável tia. Fiz um penteado todo especial e caprichei na maquilagem. Pintei as unhas, coloquei um sapatinho branco, passei perfume e vesti meias de seda. Deixei-me levar pela minha beleza interior e EXTERIOR. Entreguei rosas vermelhas para a diretora do colégio. Dancei a noite toda com as pernas emprestadas do meu tio, e fui feliz. Muito FELIZ mesmo. Felicidade que só foi crescendo a cada dia...

Depois vieram as baladas, as festas, as noitadas... E eu nunca freei meus desejos. Dancei até cair nas pistas. Vesti mini-saias. Caprichei nos decotes grandes. Abusei dos brilhos. Soltei os cabelos. Usei salto alto (na medida do possível). Vesti meias arrastão. Fiz cara e bocas. Seduzi a vida! O encontro com o sexo (?) incompleto, veio muito tempo depois. Infelizmente, como grande parte das pessoas com deficiência, fui sempre taxada como assexuada. Dei meu primeiro beijo na boca só aos 21 anos. Antes os meninos riam de mim. Não se aproximavam. Deviam me achar mesmo uma ‘aberração da natureza’ porque sempre se afastavam das minhas investidas.

Meu primeiro namorado foi um garoto com a mesma condição física do que eu. Ele também estava começando a se conhecer. Demos o nosso primeiro beijo escondidos no escurinho do cinema. Foi um furacão de emoções. Uma libido em ebulição. Mais de 10 anos de desejos reprimidos explodiram. Quando éramos adolescentes não nos deixavam participar do lúdico jogo de sedução costumeiro da nossa idade. Éramos sempre eternas crianças nos colos dos nossos pais. Quando começamos a nos encontrar, todos tiveram medo de que fossemo-nos ‘machucar’. Descobrirmos um pouco mais dos nossos corpos, mas ainda tínhamos muito que amadurecer...

Depois conheci outras bocas, provei outros gostos, senti outros perfumes, toquei outras peles, conheci outros corpos. Mas sempre de pessoas com alguma condição física diferente do que a sociedade nos ‘impôs’ como padrão. Foram experiências únicas, e muito significativas para o meu ‘amadurecimento sexual’. Namorei bastante, mas sempre a procura de algo além do desejo carnal. Curti intensamente cada fantasia sexual, e experimentei muitas sensações deliciosas... Mas tudo foi feito sempre muito às escondidas. No fundo eu não me assumia. Não assumia que tinha um corpo pronto para seduzir alguém. Não me imaginava junto com alguém sem alguma deficiência física.

Aos 22 anos me ‘apaixonei’ platonicamente por um garoto dito ‘normal’. Foi uma experiência diferente de tudo o que eu havia vivido. Confesso que em meio às loucas fantasias (que aconteciam dentro da minha cabeça), não tinha muito tempo para pensar se ele aceitaria o meu corpo do jeito que é. O que me fascinava nele era um conjunto de coisas. E pela primeira vez na vida, admiti a possibilidade de ser amava (caso ele me correspondesse, é claro!) por alguém sem uma deficiência. Esse menino parecia ‘gostar’ de mim pelo o que eu era, corpo, mente e espírito (não nessa ordem, mas tudo bem). Mas tudo ficou ‘subentendido’, e a paixão não se concretizou.

O mais importante foi que eu me permiti a assumir para os outros que eu podia sim gostar de alguém sem deficiência. Mas, confesso que o terrível e doloroso sentimento de inferioridade, sempre continuou me passando pela cabeça. Por isso, que mesmo tendo um pouco mais de amor próprio, procurei ajuda psicológica. Então, descobri que não havia nada de errado em gostar de mim mesma como era, e deixar que as pessoas se aproximassem de mim na medida de suas possibilidades internas.

Porém, o mais difícil ainda é mostrar para minha família que eu cresci. Que não sou criança e nem assexuada. Quando comecei a namorar o Marcos ouvi comentários terríveis que me rasgaram por dentro. As pessoas que eu mais amo na vida, não acreditavam que eu pudesse ser, simplesmente, FELIZ. Por que será que os pais de pessoas com deficiência não aceitam que seus filhos têm sexualidade? Por que será que é tão doloroso para eles assumirem que seus filhos podem ser felizes se realizando na cama (no sofá, no chão, na escada, no elevador, no...) com seus corpos, simplesmente, diferentes? Espero que um dia, todos aprendam que a simetria e a perfeição foram conceitos criados por eles mesmos, e, portanto, podem ser destruídos a qualquer momento.

Terrível é sentir que os preconceitos ainda estão tão arraigados. Existem vários péssimos profissionais da saúde que, simplesmente, ignoram a sexualidade da pessoa com deficiência. Eu sofri uma agressão tão intensa que nunca vou me esquecer. Aos 18 anos, fui obrigada a ir há uma ginecologista amiga da família. Uma mulher amarga, estúpida e totalmente antiética, enfiou um livro de anatomia na minha cara, me tratou como criança, e disse que eu NÃO tinha o direito de usar o meu corpo para NADA. Proibiu de eu ter relações sexuais, e ainda disse - olhando nos meus olhos e apontando o dedo para o meu nariz - que eu não poderia fazer nada com meu corpo sem antes falar para alguém da minha família.

A péssima profissional ainda teve a cara de pau de perguntar se eu já tinha namorado um garoto. Quis saber, em detalhes, tudo o que eu tinha feito com ele. Obrigou-me a contar tudo. Coagiu-me. Não respondeu nenhuma pergunta que fiz. Não esclareceu nenhuma dúvida. Não me informou sobre os métodos contraceptivos, e os que evitam doenças sexualmente transmissíveis. E o pior de tudo, nem quis me examinar para saber se eu tinha alguma doença. O exame de papa Nicolau, ela nem solicitou que eu fizesse. Saí de lá muito assustada, agredida e com medo. Mas consegui pensar sobre tudo o que aconteceu comigo, e resolvi tomar as rédeas da minha vida sexual de uma vez por todas para SEMPRE. Não desejo ao pior inimigo o que passei naquele consultório. Infelizmente, eu nunca vou esquecer. Fui estuprada emocionalmente!

Como, infelizmente, muitas outras pessoas com deficiência ainda passam por situações terrivelmente humilhantes como a que eu passei, me sinto na obrigação de alertar a sociedade que TODAS as pessoas podem ser felizes do jeito que são. Têm total direito de serem amadas, desejadas, queridas, seduzidas, e principalmente, de se apaixonarem pelos seus corpos. Têm o total direito de se sentirem confortáveis dentro deles, e exalarem felicidade pelos seus poros, como eu estou fazendo agora. Minha vida sexual é uma delícia! Realizo várias fantasias com o meu corpo. Eu e meu amado nos respeitávamos, experimentávamos, e curtimos MUITO - sem medos e culpas - tudo que conseguimos fazer com os nossos desejos. Dentro de quatro paredes, abraçamos o mundo das fantasias!

Mas, como eu sou mais exibida do que ele, resolvi continuar mostrando um pouco da minha alegria e finalmente, me libertar das amarras internas do pré-conceito que tinha comigo mesma. Porém - as amarras externas - creio que ainda levarão muito tempo para serem soltas, porque a sociedade teima em ser hipócrita e prepotente. Em achar que só quem segue os ‘padrões da normalidade’ pode ser feliz. Confesso, a vocês, que no fundo da alma eu sempre soube que nunca deixei de ser eu mesma, tanto por dentro como por fora. Mas no início era muito duro entender que comigo tudo parecia ‘meio diferente’. Roupas tinham que ser feitas na medida. Sapatos não podiam passar do limite. E o mais difícil: TODOS (salvo raríssimas exceções) sempre me observavam com muito estranhamento.

Hoje não tenho nenhuma vergonha de caprichar no visual. Visto roupas de acordo com a minha idade, pois, por incrível que pareça já me vesti como criança, ou deficiente coitadinha e doente. Uso maquilagem, passo perfume, pinto as unhas, ando se salto alto, falo sobre sexo com minhas amigas, uso roupas íntimas sensuais, abuso dos decotes, solto os cabelos... Tudo isso sem me auto-afirmar ou exibir aos outros que sou MULHER, porque, agora, simplesmente, me sinto bem do jeito que sou. Sou diferente sim! Chamo a atenção. Mas quem não é? Quem não chama? Eu sou um pouquinho diferente do que as outras pessoas. Só isso. Já chamo a atenção por natureza. Não preciso fazer tatuagens, colocar piercing, pintar os cabelos de vermelho, usar uma melancia no pescoço...

As fotos e os depoimentos do projeto “Fantasias Caleidoscópicas” vão refletir as DELICIOSAS fantasias – ‘reais’ e imaginárias - que todos têm de si mesmo. Pessoas com várias deficiências (física, auditiva, visual, intelectual, múltipla, e surdocegueira), sejam elas: idosas, gestantes, obesas, casais homossexuais e/ou heterossexuais, de todas as etnias, e classes sociais, que em um estúdio fotográfico mostrarão sua sensualidade em poses sensuais.

A ideia é dizer para uma sociedade ‘anestesiada’ (espera-se que não esteja em coma), com a ditadura da beleza ideal, da perfeição, dos corpos saudáveis e bem torneados, e das formas esbeltas; que a sedução, as fantasias, os amores, as paixões, e a sensualidade estão na diversidade de corpos, olhares, perfumes, gestos, cores, formas, tamanhos, palavras, texturas, sons e sentimentos, CALEIDOSCOPICAMENTE HUMANOS.

O objetivo de Vera, como fotógrafa, é questionar o padrão de beleza – instituído pelos meios de comunicação e pela moral dominante – ressaltando a possibilidade de uma democratização do prazer, uma igualdade de direitos sexuais, uma disposição das mentes (e dos corações) contra os juízos prévios e os preconceitos. 

E o meu, como jornalista, é dar voz às imagens é tão importante quanto o registro fotográfico, pois é interessante conhecer as histórias de vida dessas pessoas, que em sua maioria ainda são bem pouco ouvidas. O enfoque está na arte e na educação como agentes transformadores da realidade, aliados à palavra, como testemunha dos fastos e detentora de um poder de mudança na sociedade. Vamos promover um ciclo de palestras em escolas, ONGs e universidades, uma exposição fotográfica, um documentário e dois livros sobre o tema.

A história do projeto

Á convite da – MAM – Movimiento Amplio de Mujeres Línea Fundacional (Peru) e da Associação Internacional para o Estudo da Sexualidade, Cultura e Sociedade, as primeiras nove fotos foram expostas no “6º Congresso Internacional Prazeres Dês-Organizados – Corpos, Direitos e Culturas em Transformação”, em Lima no Peru, em junho de 2007. O embrião do projeto ficou em segundo lugar (categoria pôster) na premiação do congresso. 

Em virtude desta premiação, Leandra foi entrevistada pelo Observatório de Sexualidade e Política (SPW na sigla em inglês): um fórum global composto de pesquisadoras/es e ativistas de vários países e regiões do mundo. 

E a convite do Ministério da Saúde brasileiro, o projeto Fantasias Caleidoscópicas também foi apresentado no “I Seminário Nacional de Saúde: Direitos Sexuais e Reprodutivos e Pessoas com Deficiência”, em Brasília, em março de 2009 e publicado em livro em 2010. E em virtude deste seminário, a TV Brasil fez uma reportagem sobre a Sexualidade da Pessoa com Deficiência e entrevistou a coordenadora do projeto, Leandra.

Em 2017, Leandra realizou uma importante palestra e uma entrevista exclusiva sobre Sexualidade da Pessoa com Deficiência, no "1º Congresso Internacional ON LINE sobre Sexualidade para Profissionais da Saúde", promovido pela Dra. Vanessa M. Cesnik-Geest, psicóloga e doutoranda (USP), Sexóloga e Terapeuta Sexual, Especialista em Constelação Sistêmica.

A repercussão das atividades foi ótima, segundo alguns principais comentários:

"Escuchando correctamente la conferencia de Sexualidade das pessoas com deficiência de Leandra. Para mi muy interesante ya que soy sexóloga y trabajo con personas con diferentes discapacidades" - Maria Marta Castro Martin, CAPACITADORA Y COORDINADORA em Educar en Sexualidad de Buenos Aires. 

"Que palestra fantástica!! Tratou de todos os assuntos com muita clareza, confiança e uma simpatia, está de parabéns" - Ricardo Falcão da Faculdade do Vale do Jaguaribe - FVJ.


"Leandra você é o máximo!!! Parabéns pela palestra, super esclarecedora, direta, objetiva e infelizmente realista quanto aos exemplos dados, ainda nos dias de hoje todo esse preconceito." - Iza Michelle Aragão da Faculdade São Francisco de Barreiras. 



*Leandra Migotto Certeza é jornalista com deficiência física, (Osteogenesis Imperfecta), desde 1999 com mais de 100 textos publicados. Foi editora das duas principais revistas brasileiras sobre inclusão (Sentidos e Ciranda da Inclusão); e atualmente é membro do Coletivo Mulheres pela Inclusão e mantém o blog: 

“Caleidoscópio – Uma janela para refletir sobre a diversidade da vida” - http://leandramigottocerteza.blogspot.com/

Leandra também é Consultora e Ativista em Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência, e coordenadora do projeto “Fantasias Caleidoscópicas” (sobre sexualidade da pessoa com deficiência). Recebeu a Classificação de Excelência no “Concurso de Periodismo y Comunicación Sociedad para Todos”, da Associación Capital Humano na Colômbia em 2003, e ficou em segundo lugar (na categoria pôster) no “Sexto Congresso Internacional Prazeres Dês-Organizados Corpos, Direitos e Culturas em Transformação”, no Peru em 2007.

Informações sobre o projeto no blog: http://fantasiascaleidoscopicas.blogspot.com

Erotismo e Deficiência combinam!


Descrição da imagem: capa do livro “Sexualidade e Deficiência: Rompendo o Silêncio”. DE PAULA, Ana Rita; REGEN, Mina; LOPES, Penha. Expressão & Arte Editora – Brasil – 2005. Cor de fundo da imagem é lilás e tem a foto da obra autobiográfica da artista Frida Karlo. Ela está nua e com um colete na coluna e todo o seu corpo cortado ao meio por um grande e forte pedaço de ferro exposto na imagem. Seu semblante é de uma dor profunda.E embaixo da foto tem o nome do livro, das autoras e da editora. 


Por Ana Rita de Paula, Mina Regen e Penha Lopes*

Erotismo deficiência são termos que parecem não combinar quando postos lado a lado. Mas combinam! Nós é que não percebemos. Quando uma pessoa com deficiência, diz que mantém relações sexuais, em geral, podemos reagir com desconfiança ou pena.

Primeiro, por duvidar que alguém possa sentir atração por ela: é mais provável que esteja se aproveitando ou obtendo alguma vantagem. Segundo, por supor que ela esteja fantasiando ou mentindo. Lamentamos, então, a impotência humana diante das fatalidades que atravessam nossas vidas!

Como o novo sempre nos assusta, procuramos nos vincular ao já conhecido. E, assim, buscamos refúgio nas imagens que a sociedade, geralmente, nos apresenta tanto de sexualidade (sexy é quem exibe um corpo perfeito e simétrico, segundo os padrões de beleza e estética da mídia) quanto das pessoas com deficiência (alguém que erroneamente supomos ser imperfeito, incapaz, frágil, e que não pode fazer parte da sociedade dita ‘normal’).

O resultado é um misto de muita alienação, desinformação e preconceito. Esses sentimentos e reações não requerem julgamento, mas uma revisão à luz de informações que permitam ver além dos estereótipos. A disposição interna para refletir sobre essas posturas e mudar é o primeiro passo no sentido de favorecer a inclusão das pessoas com deficiência.

A disposição de amar inclui a capacidade de acolher, trazer afetuosamente para perto de si o mundo e a vida em suas faces mais plurais. É enriquecedor receber o outro, no caso a pessoa com deficiência, disposto a compreendê-lo dentro de suas circunstâncias. 

Encarar a sua sexualidade como algo natural, não como um tema obscuro e restrito, ajuda a explicitar o conjunto de significados que a sociedade, geralmente, escreve naquele corpo e libertá-lo desses conteúdos subliminares, que burocratizam, restringem e bloqueiam suas experiências pessoais e afetivas.

*Trechos da obra: “Sexualidade e Deficiência: Rompendo o Silêncio”. DE PAULA, Ana Rita; REGEN, Mina; LOPES, Penha. Expressão & Arte Editora – Brasil – 2005.